Arquivo mensal: setembro 2013

Paes e as Flores Astrais

Momento incrível capturado por Camila van der Linden em show no festival Flores Astrais!

Foi o meu melhor show até agora nesta breve carreira, e em muitos aspectos a melhor performance desta proposta!

Minha menina, a banda, os veículos Outros Críticos, Hominis Canidae e MI, os amigos mais próximos e por fim Rodrigo Gondão, o idealizador deste festival e o público que assistiu, injetaram ânimo em minhas veias a cada aplauso, gesto ou palavra! 

Obrigado a todos e vamos em frente que a “estrada nos diz o porquê e por onde guiar, a nos levar”

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“Infinito” – Ensaio de Rodrigo Édipo (MI)

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Infinito

“Em pé, com fé, onde o homem iria?
Até onde o homem iria?”

Caso o tele­fone não tivesse tocado naquele momento, o resto da minha vida seria dife­rente. Aos 67 anos eu já estava can­sado de ten­tar fazer a minha vida acon­te­cer. As pes­soas pas­sam a vida ten­tando fazê-la acon­te­cer, e no meu caso, isso me acom­pa­nha desde que me recu­pe­rei de um menin­gismo aos 15 anos.

Quem estava na linha era Rafael, amigo que conheci no lon­gín­quo 2017 em uma das via­gens que fiz com a banda Paes para João Pessoa — época em que minha poe­sia andava ner­vosa, desa­cre­di­tada e as pala­vras jor­ra­vam tão inqui­e­tas quanto a mais pre­coce das ejaculações.

– Alô, Paulo? Tô ligando pra lhe fazer um con­vite… pre­ci­sa­mos de você.

Rafel — hoje um velho de 70 anos deso­ri­en­tado da vida e achin­ca­lhado pelo cigarro — que­ria que eu apa­re­cesse em sua casa de praia para nadar, fumar um base­ado e tomar água de coco. Mesmo can­sado para qual­quer tipo de des­lo­ca­mento além do quar­tei­rão da minha cama, resolvi ir.

Estávamos em um nublado agosto. Devido à pro­fis­são que exer­cera por toda a vida, Rafael sem­pre andou rode­ado de jovens. A tarde tinha sido legal, mas extre­ma­mente sem sen­tido. Lembro da pre­sença de Aninha e de outras garo­tas. Todas no auge do biquini. De longe, sen­tado no chão, o peso da idade e dos divór­cios me dis­tan­ci­ava de qual­quer uma delas.

Com 67, ainda fal­ta­vam dois anos para que eu — Paulo Paes, músico e poeta caduco das esqui­nas do Recife — pudesse fazer alguma refe­rên­cia sexual e esdrú­xula à minha idade. Charles Bukowski teria muita pena de mim.

Enquanto anoi­te­cia, apa­re­ceu outra jovem, o nome era Larissa. Por volta dos 17 anos. Era per­feita. Disseram-me que estava apai­xo­nada por um tal de Mathias, que tam­bém estava no local. Notei que ela não tirava os olhos dele, mas o cara não lhe dava a mínima.

Deixei pra lá, porém quando já me des­pe­dia de toda aquela juven­tude que já varava a madru­gada, Larissa me per­gun­tou se eu pode­ria levá-la para casa, jus­ti­fi­cando estar cha­te­ada com Mathias. Senti que essa des­ce­nes­sá­ria con­fis­são era um tru­que das mulhe­res para des­per­tar o inte­resse dos homens.

– Ele é muito sor­tudo – abri a guarda.

Durante o tra­jeto, a nossa con­versa não pas­sou de um papo água. Ela disse que era atriz e estava pro­cu­rando tra­ba­lho. Deixei-a no lugar pedido, certo de que se tra­tava ape­nas de uma pir­ra­lha. E vol­tei pra casa.

“Bate na porta do des­co­nhe­cido
Misteriosamente”

Depois de 5 minu­tos o meu tele­fone tocou. Era Larissa:

– E aí, o que tá fazendo? – per­gun­tou ela.

Disse que tinha jan­tado e estava na cama lendo.

Larissa quis saber o nome do livro e como era meu quarto. Ela era capaz de ima­gi­nar o nível de soli­dão daquela noite.

Isso me atraiu e – aos 67 anos e ainda ten­tando fazer a vida acon­te­cer – me entreguei.

– Até quando você vai viver o sonho de Sal Paradise? — provocou.

O san­gue implo­diu nas minhas veias e — quando dei por mim — já estava lhe fazendo juras de amor, vendo poe­sia onde não tem.

Embora fosse bonita, não encon­trei o ardor e o entu­si­asmo que uma garota de 17 anos ins­pira. Só me inte­res­sava pelo amor romântico.

(…)

A cerimô­nia foi sim­ples e rápida. Estávamos casados.

– Você já bei­jou a noiva, Paulo? — per­gun­tou o Padre

– Ah sim… — disse sorrindo.

Depois de trinta minu­tos minhas emo­ções come­ça­ram a ficar con­fu­sas. Senti que tinha sido fis­gado para aquele altar por um con­junto de cir­cuns­tân­cias absur­das que a vida buro­crá­tica nos apri­si­ona. Todas elas per­fei­ta­mente evi­tá­veis. Contudo, não pode­ria esque­cer, sem­pre dese­jei uma esposa para viver o amor eterno. Larissa era jovem e bonita, com 18 anos incom­ple­tos e — embora eu tivesse 50 anos a mais — tal­vez o casa­mento vingasse.

Talvez a vida – final­mente – come­çasse a acontecer.

“A natu­reza do ser
Não é quanto ter
E sim, quanto a ter sentido”

Embora não esti­vesse apai­xo­nado, agora eu era um homem casado e que­ria que meu casa­mento desse certo. Eu tinha algo para ocu­par a mente. Mas o casó­rio pra Larissa era ape­nas uma con­quista espor­tiva, assim como uma vitó­ria no mais dis­pu­tado con­curso de novos talen­tos. O negó­cio dela era outro.

Dois meses bastaram.

– Você não me ajuda… não sei para quê eu lhe tenho – falou Larissa de forma ríspida.

A car­reira de atriz de Larissa não saia do canto e ela pas­sou a me cul­par pelo pró­prio insu­cesso. E depois de tanto não enten­der e de me ilu­dir com o amor ver­da­deiro que ela supos­ta­mente nutria por mim, per­cebi que eu não lhe ser­vira nem de trampolim.

Talvez as engre­na­gens esti­ves­sem enfer­ru­ja­das demais para aju­dar no salto.

Isso me trouxe más lem­bran­ças, arqué­ti­pos que me assom­bram desde minha con­tur­bada rela­ção edi­pi­ana aniquilaram-me sem pena. Foi triste per­ce­ber que dessa vez a minha vida só acon­te­ceu por ape­nas dois meses. 60 dias, para ficar um pouco mais dramático.

Sou fas­ci­nado pelas rela­ções inter­pes­so­ais, elas são a minha maior fonte de ins­pi­ra­ção para con­ti­nuar fazendo o que eu sei. A ver­dade é que não é só na ascen­são que evo­luí­mos, é na queda que apren­de­mos as mai­o­res lições.

E assim a vida vai se preparando.

Nas horas des­co­ber­tas pelos sonhos. O infinito…

Fragmento extraído da auto­bi­o­gra­fia “Paulo Paes: Infinito”, no prelo.

http://mionline.com.br/site/blog/paulo-paes-infinito/

“no mínimo era isso” – coletânea + livreto

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Paes participa da coletânea “no mínimo era isso” com a faixa “Infinito” e ganha também ensaio de Rodrigo Édipo no Livreto publicado.

Para baixar a coletânea + livreto basta clicar no link: http://outroscriticos.com/no-minimo-era-isso-10-bandas-10-ensaios/